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Novos avanços no entendimento da influência genética na resposta à infecção por covid-19

Escrito por Editor@

novembro 29, 2022

Análises do DNA de gêmeos com covid-19 evidenciam a influência do ambiente sobre os genes; pesquisadores também estão investigando o caso dos idosos que se mostraram resistentes às formas graves da covid

Dois irmãos gêmeos idênticos foram internados ao mesmo tempo no hospital devido à covid-19. Permaneceram cinco dias intubados e receberam o mesmo tratamento. Após 13 dias, um deles teve alta hospitalar e o segundo permaneceu internado por mais sete dias. Com o passar dos meses, este segundo gêmeo também apresentou sintomas de covid longa, caracterizada pelo cansaço excessivo em realizar tarefas rotineiras e dificuldades respiratórias persistentes, enquanto seu irmão se recuperou plenamente da infecção. Essa diferença entre os dois chamou a atenção do pesquisador Mateus Vidigal de Castro, do Centro de Estudos sobre o Genoma Humano e Células-Tronco (CEGH-CEL) da USP, já que sua pesquisa sobre a resposta imunológica ao sars-cov-2 se volta justamente para irmãos gêmeos. “Acompanho as histórias que saem na mídia e, em caso de interesse, entro em contato para obter mais dados e os convido para fazerem parte do estudo. É uma busca ativa, em que o nosso grupo identifica um perfil de pesquisa e procura construir a amostra”, conta o pesquisador ao Jornal da USP.

Cronologia clínica dos principais eventos do caso dos gêmeos – Foto: Reprodução

Cronologia clínica dos principais eventos do caso dos gêmeos – Foto: Reprodução

 

Para este caso, amostras de sangue de ambos foram coletadas em fevereiro de 2022 – sete meses após o diagnóstico de covid-19 e quatro meses após receberem uma segunda dose da vacina Pfizer-BioNTech. O objetivo foi avaliar a genética e o perfil imunológico dos pacientes. Análises laboratoriais clínicas complementares também foram realizadas.

Os gêmeos apresentaram frequências normais de células responsáveis pela defesa do organismo contra agentes desconhecidos, tais como linfócitos T, B e natural killers. Os perfis de anticorpos IgA, IgM e IgG eram praticamente idênticos entre eles.

Para Castro, embora a genética deles fosse igual, os fatores ambientais (agentes físicos, substâncias químicas, agentes biológicos e fatores nutricionais, por exemplo) influenciaram na evolução da infecção. Os resultados do estudo foram publicados na revista Frontiers in Medicine.

Gêmeos em foco
Em seu trabalho, o pesquisador já entrevistou sete pares de gêmeos e fez a coleta de amostras de sangue. Alguns dos resultados dessa pesquisa já foram publicados aqui no Jornal da USP, com uma situação similar à descrita neste novo artigo: duas irmãs gêmeas tiveram covid-19 em intensidades diferentes e uma delas foi reinfectada, quando ainda não se sabia se isso poderia acontecer. A publicação deste segundo trabalho dentro da mesma linha de pesquisa reforça ainda mais essa possibilidade.

Desde o início da pandemia são frequentes as notícias sobre irmãos gêmeos com covid-19 que evoluem de maneira similar. “Seria o esperado, de certa maneira, uma vez que os genes de ambos são idênticos. Isso mostra claramente uma influência genética na doença”, explica Castro.

O segredo dos centenários

Num segundo estudo realizado também por Mateus de Castro, os dados se voltam para pacientes idosos. Segundo dados sobre covid-19 compilados em um artigo pela Fiocruz de 2020, 15% dos infectados com mais de 80 anos morreram, uma média quase quatro vezes maior do que a população em geral. Entretanto, uma pequena parcela de pessoas, apelidadas de “superidosos”, quando foram contaminadas, tiveram sintomas leves ou permaneceram assintomáticas. Para chegar a essas pessoas, de novo foi necessário buscar os pacientes de maneira ativa, dessa vez por meio dos testes de covid-19 realizados nos convênios médicos, o que tornou possível identificar 87 pessoas dentro do perfil desejado, entre nonagenários e centenários.

A coleta de DNA desse grupo e a comparação com o DNA de um grupo de jovens que tiveram formas graves de covid mostraram que o grupo resistente tinha o gene MUC-22 em uma frequência duas vezes maior em relação aos jovens. Para isso, a investigação focou esforços em comparar regiões da estrutura genética responsáveis pela ativação da resposta imune do organismo.

Vidigal conta que o caso que mais o marcou foi de uma centenária moradora da Paraíba, que teve covid-19 com 114 anos de idade com sintomas leves e só foi hospitalizada por conta do protocolo de atendimento devido à idade e não aos sintomas. Mayana Zatz, coordenadora do CEGH-CEL, deu mais detalhes para a Rádio USP sobre este trabalho e o programa pode ser ouvido aqui.

Os dados destes estudos foram coletados em 2020 e 2021 quando a vacina ainda não estava disponível. Atualmente, com a vacinação, as formas graves de covid-19 são menos frequentes.

*Ana Fukui, bolsista Mídia Ciência Fapesp – FMUSP

Mais informações: e-mail mateusvcastro@gmail.com, com Mateus V. de Castro

Via: USP

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