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Pandemia mostrou que sistema público precisa de hospitais, diz chefe da Rede D’Or

Escrito por +o2labs

junho 9, 2022

Leandro Reis Tavares, vice-presidente médico da Rede D’Or/São Luiz, diz em entrevista exclusiva na série UOL Líderes que se acreditava, nos últimos anos, que o atendimento extra-hospitalar público fosse resolver os problemas de saúde da população mais pobre. Mas, ao chegar “uma pandemia como a da covid-19”, foram os hospitais que fizeram diferença no atendimento à população.

Tavares afirma que o sistema público de saúde está estrangulado há mais de uma década e que as “mazelas” do SUS (Sistema Único de Saúde) precisam ser superadas por meio de um financiamento público mais robusto. “Com 3,5% do PIB [Produto Interno Bruto], nós não vamos chegar a lugar nenhum”.

A Rede D’Or deverá investir R$ 17 bilhões nos próximos cinco anos na construção, reforma e ampliação de hospitais, entre eles, um complexo hospitalar na zona sul de São Paulo. Os investimentos também serão feitos em pesquisa e inovação.

Na crise, hospital público foi a salvação

 

UOL – Há excelentes hospitais públicos, mas nem sempre isso vale para todo o sistema. Por que?

Leandro Reis Tavares – Há um estrangulamento do funcionamento do sistema público e não temos recursos. Há mais de uma década temos investido 3,5% do PIB [Produto Interno Bruto], mas precisamos chegar a 7% ou 8% [para melhorar a saúde pública].

Nos últimos anos, houve um debate que argumentava que o sistema único não precisava de hospitais porque o atendimento extra-hospitalar iria resolver tudo. Mas, quando chegou uma pandemia como a da covid-19, foram os hospitais que precisaram acudir a população. E, quando os hospitais públicos não tiveram condição, foi um momento de choque e de crise do setor.

 

É possível dar um atendimento de qualidade ao mais pobre?

Temos um Sistema Único de Saúde no Brasil que é uma evolução civilizatória, mas as mazelas do SUS precisam ser superadas por meio de um financiamento mais robusto. Não vamos conseguir isso com uma restrição orçamentária imposta pela emenda constitucional 95 [que trata do teto de gastos públicos.

 

Falta vontade política para mudar este cenário?

Há uma dificuldade em ordenar as prioridades da sociedades. Mesmo fora dos momentos de crise, temos uma carga tributária na saúde equivalente ao restante da economia. Acredito que é falta de vontade política, mas sob o viés da falta de clareza dos valores sociais que queremos para a sociedade.

 

A Rede D’Or/São Luiz é assim:

 Fundação
Fundação: 1977

 Funcionarios
Funcionários: 67 mil

Atendimentos
Atendimentos: 10 milhões/ano

Unidades
Unidades (2021): 68 hospitais (próprios), 3 hospitais (administrados), 50 clínicas e 11 laboratórios

Presença Brasil
Presença no Brasil: 11 estados e Distrito Federal

Faturamento
Faturamento (2021): R$ 22,8 bilhões

Investimentos
Investimentos (2021): R$ 5,6 bilhões

 

Interior do Brasil perde leitos

 

UOL – Como a crise econômica afeta a Rede D’Or?

Leandro Reis Tavares – Fatores macroeconômicos têm efeitos diretos sobre o setor de saúde. [No entanto] Os nossos custos estão equalizados [equilibrados].

Mas a nossa realidade como a maior rede de serviços de saúde não é a mesma dos pequenos hospitais brasileiros. Há quem defenda que isso é um fenômeno natural, mas não é. No Brasil, estamos perdendo leitos hospitalares nas periferias e no interior do país, e temos um número de leitos por habitantes inferior ao que a Organização Mundial da Saúde [OMS] recomenda.

Estamos vivendo uma situação muito preocupante no país. Esses leitos fazem muita falta. Precisamos olhar a carga tributária dos hospitais. Como grande grupo, passamos por essas variáveis de uma forma tranquila, mas é um setor que perde leito, e isso não é bom para o país.

 

Quais hospitais estão perdendo leitos? Públicos ou privados?

Os dois estão perdendo leitos. O Brasil é um país continental, a infraestrutura em saúde precisa ser capilarizada. Não precisamos de instituições de alta complexidade em todos os lugares, mas são necessárias estruturas de saúde básica em todos os lugares.

 

Você defende a redução da carga tributária para os hospitais?

Neste momento, se não atrapalhar já ajuda. Os hospitais não estão sobrevivendo com a carga tributária atual. Não estou pleiteando a diminuição, mas o não aumento da carga tributária.

 

Desafio é a formação e qualidade

 

UOL – Qual o maior desafio da Rede D’Or?

Leandro Reis Tavares – O maior desafio é a formação de pessoas. Encontrar as pessoas certas, treiná-las, prepará-las, colocá-las nos lugares certos.

 

E como está o ensino da medicina no Brasil? Cursos caros refletem em qualidade? E o acesso de quem tem menor renda?

Tivemos no país uma proliferação de escolas de saúde em geral, não só de medicina. Essa evolução não foi acompanhada pela qualidade que gostaríamos.

Entendemos que a formação em saúde está muito limitada. Investimos em educação, pesquisa e inovação e aprofundamos questões técnicas, de liderança em gestão, mas também questões de soft skills, comportamentais. Muito frequentemente o profissional ganha o emprego pelo currículo e perde pelo comportamento.

Em relação à acessibilidade, existem também escolas públicas e universidades que, por meio de cotas e outras ferramentas, já reservam um pedaço para pessoas de classe social mais baixa, mas o país precisa ir além e financiar a formação desse profissional de saúde.

 

O ensino remoto na área de saúde é viável?

A medicina é uma profissão de toque, a enfermagem mais ainda. Não tem como prescindir do contato do humano, e os canais virtuais não substituem isso. Como ferramenta pode ser utilizado, mas é preciso ter cuidado porque nós somos uma profissão de toque, que lida com gente.

“Temos um Sistema Único de Saúde no Brasil que é uma evolução civilizatória, mas as mazelas precisam ser superadas com um financiamento mais robusto. Há mais de uma década temos investido 3,5% do PIB, mas precisamos chegar a 7% ou 8%”

Leandro Reis Tavares, vice-presidente médico da Rede D’Or/São Luiz

 

Setor público deve ouvir os pacientes

 

UOL – Na pandemia, a iniciativa privada tomou a frente em várias situações. Faltou liderança do Ministério da Saúde?

Leandro Reis Tavares – Acredito que a pandemia mostrou a real infraestrutura, até a intelectual, de um país na saúde. Na hora que a covid nos atingiu, foram expostas as nossas fragilidades construídas ao longo de décadas. Precisamos ficar atentos a isso, formar líderes e gestores cada vez mais competentes, tanto no setor público quanto no privado.

Precisamos entender a real necessidades da população. Por vezes, a discussão fica em um campo intelectual e etéreo, que não alcança as dores das pessoas que estão nas emergências e não conseguem atendimento. No setor privado, somos guiados pelo que nossos pacientes nos dizem.

Durante a pandemia, nós tomamos a iniciativa e nos conectamos com um conjunto de hospitais do norte da Itália, que já estavam sofrendo muito com a covid. Vimos que precisávamos nos preparar de uma forma que ainda não estávamos sendo capazes de enxergar. Por isso, nunca precisamos fechar uma emergência.

 

Por que a pandemia não deixou como legado uma maior cooperação entre os setores público e o privado?

Eu concordo com você que tem espaço para parceria, concordo que falta no Brasil a construção formal de onde essa parceria pode se dar sem que seja questionada ou que fique parecendo uma simples doação pontual. Falta esse espaço formal.

Fazer a gestão para o poder público, por vezes, é muito difícil. A gente não tem participação em instituições públicas, quando assumimos algum compromisso, o fazemos gratuitamente com dinheiro privado. Temos uma preocupação muito grande e reconhecemos que hoje muitos gestores públicos cometem equívocos e o MP [Ministério Público] pega, a polícia também.

A vida dos gestores públicos sérios também não é fácil. Eu vi muitos sendo questionados porque estavam comprando máscaras e luvas a um preço cinco vezes maior do que o normal. O mundo inteiro comprou desta forma. Muitas vezes o gestor público não tem capacidade de negociação, compra mais caro e acaba atropelado por uma série de investigações.

Temos clareza de que as ferramentas de controle do Estado são importantes porque vemos todos os dias malfeitos sendo pegos, mas é desafiador para o gestor sério fazer gestão na saúde pública.

Mas, é fato, precisamos ter ambientes formais onde essa parceria possa se dar de forma mais estruturada e o setor privado possa colaborar de forma mais ativa.

 

R$ 17 bi em expansão

 

UOL – Quais os investimentos da Rede D’Or nos próximos anos?

Leandro Reis Tavares – Para os próximos cinco anos, temos planos de investir R$ 17 bilhões no Brasil, somando toda a construção, expansão e reforma de novos hospitais, investimentos em inovação e equipamentos. São 43 grandes obras.

Vamos investir, por exemplo, R$ 1,5 bilhão nos próximos anos dentro da cidade de São Paulo, no complexo do Itaim Bibi [zona sul], onde originalmente era a maternidade São Luiz Itaim. Estamos dando vida a um complexo de mais de 700 leitos. Faremos cirurgias de altíssima complexidade, transplante, teremos aparelhos e tecnologias que não existem no Brasil.

Investiremos em todos os estados em que atuamos [11 estados e no DF].

 

A Rede D’Or tem o Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino. Quais inovações são desenvolvidas?

O Idor [Instituto D’Or] já fez diferença na vida da população brasileira em inúmeros momentos. Como é financiado totalmente pelo setor privado, é muito ágil para enfrentar os assuntos em voga da sociedade.

Quando tivemos a epidemia de zika, as pesquisas do Idor foram fundamentais para entendermos a doença. O Idor faz pesquisa com mini cérebros, que são testados para utilização de medicamentos e [simular] situações ambientais.

Nós fomos a maior plataforma de multi testagem de diferentes vacinas.

Tínhamos previsto investir R$ 500 milhões nos próximos dez anos no Idor, mas a família Moll [fundadora da Rede D’Or] resolveu aportar um valor semelhante, e o orçamento passou para R$ 1 bilhão.

 

Clínica popular é solução incompleta

UOL – O surgimento de clínicas populares concorrem com as grandes redes?

Leandro Reis Tavares – Elas são o reflexo de estruturas privadas que restringiram o acesso aos pacientes e uma resposta à falta de acesso que existe no sistema público. É uma solução incompleta, porque o paciente precisa de uma coordenação do seu cuidado, precisa ser orientado sobre como navegar no sistema de saúde.

A consulta é uma dimensão da necessidade do paciente — mas ainda há a educação, a promoção e a prevenção, os exames, as intervenções cirúrgicas, os tratamentos crônicos. É preciso monitorar como o paciente está se tratando.

Mas essas clínicas cumprem um papel social. É inegável que elas entregam o que prometem. A consulta é feita, e muitos dos problemas das pessoas acabam sendo equacionados ali.

 

O perfil de pessoas que procuram as redes particulares mudou?

O que estamos notando, infelizmente, é que ainda há paciente que postergou o tratamento e investigações crônicas durante a pandemia, e continuamos vendo doenças mais avançadas represadas. Esse é um efeito nefasto de uma pandemia: as pessoas perdem o hábito de ir ao atendimento médico, fazer exames de rotina, cuidados preventivos. Infelizmente, muitas não vão voltar a fazer porque precisam recuperar o hábito. Precisamos voltar a alertar a população.

Nascimento: Niterói (RJ)
Idade: 47 anos
Família: Casado, 3 filhos
Hobbie: Viajar
Time de futebol: Flamengo (RJ)
Cargo atual: Vice-presidente médico e de serviços da Rede D’Or / São Luiz
Cargos de destaque:
Diretor da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS)
Diretor da Amil Resgate Saúde e do laboratório Sergio Franco
Ex-professor convidado da Wharton Business School (EUA)
Graduação e pós:
Medicina (UFF)
Especialização em cardiologia (UFF)
Mestrado em cardiologia (UF)
Doutorado em cardiologia (USP)
MBA executivo (Fundação Dom Cabral)
Um Livro:
“A Divina Comedia”, de Dante Alighieri – “Uma obra-prima irretocável, que nos apresenta, em forma de trilogia, um poema político-teológico sobre vida após a morte, que inspira profundas reflexões sobre o homem, a fé e a razão”
Um filme
“Cinema Paradiso”, do diretor Giuseppe Tornatore – “É, sem dúvida, uma das obras mais belas e espetaculares obras cinematográficas de todos os tempos. Mexe com os sentimentos de forma retumbante. É um conto sobre amizade que machuca, mas também reconforta. A cena final é emoção pura”
 
 

https://economia.uol.com.br/reportagens-especiais/entrevista-uol-lideres-leandro-tavares-vice-presidente-medico-rede-dor/#cover

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